quinta-feira, 6 de julho de 2017

SaLit(e)ra




Festival Literatura-Mundo Sal2017. A primeira das muitas edições futuras que certamente se seguirao.

Um encontro de escritores, editores, tradutores, críticos literários, investigadores, jornalistas e curadores de diferentes proveniências para trazer ao nosso Cabo Verde uma discussão e um processo que já se iniciou lá fora sobre a mundialização de outra literatura, aquela fora dos cânones.E de caminho, inscrever a Ilha do Sal e Cabo Verde no centro do turismo cultural atlântico.

Estao cá os nossos Arménio Vieira, Dina Salústio,Germano Almeida, Vera Duarte, José Luiz Tavares, Evel Rocha, Joaquim Arena, entre outros. E estao também os que vieram de mais longe como Inocencia Mata, Zia Soares, Dejan Tiago Stankovic, Yolanda Castano,Guiomar Grammont, José Manuel Fajardo... Todos recebidos com morabeza pelo José Luis Peixoto, o Filinto Elísio e a Márcia Souto, a equipa que concebeu este festival.


Na ilha do Sal já se sente a saLit(e)ra...

Ler Com Outro Sentido


Foto de Chissana Mosso Magalhães.Foto de Chissana Mosso Magalhães.


No ano passado, participei numa formação na Biblioteca Nacional onde conheci a professora do ensino básico Ana Mendonça. Percebi de imediato o seu interesse e entusiasmo em tornar as suas aulas o mais criativas possíveis para os seus alunos. Assim, não foi surpresa saber que estava a trabalhar com estes, textos literários com recurso a aulas bem dinâmicas e interactivas, onde autores desses textos eram convidados a irem à escola para interagir com os estudantes. A surpresa foi receber o convite da professora para ser uma das autoras a ceder um texto para ser trabalhado.

Comecei a escrever (com a ideia fixa de um dia tornar-me escritora) aos 09 anos. Desde essa idade sempre tive um caderno onde escrevia as minhas historinhas que eram sobretudo de aventuras. Na adolescência continuei a escrever as minhas histórinhas naïfs, já com um leitor específico como público-alvo: o meu sobrinho mais velho. Mas já aí começava a me interessar escrever outros tipos de textos, já que a ambição de vir a tornar-me escritora era firme (a ponto de considerar e pesquisar se havia formação superior para ser escritora ahahahaha).

Fui escrevendo, continuo a escrever (contos, crónicas, pequenos textos a que não consigo atribuir género certo...poesia, já não) e às vezes, sem programar, saem-me histórias que poderiam interessar a outros leitores que não adultos. Mas também não as vejo como contos infantis. A ter que definir uma fronteira, seriam textos infanto-juvenis, para crianças dos 10 aos 15 anos.

Um deles (" A Cadeira de Ti Laia", uma homenagem à minha avó materna) recebeu uma menção honrosa num concurso em Portugal. Outro - "Mininus" - foi o escolhido pela professora Ana Mendonça e pelos seus alunos para trabalho de leitura e interpretação em sala, que culminou num emocionante encontro que com eles tive em Março passado. Cheguei lá a pensar que ia para a sala de aulas conversar um pouco e responder a meia dúzia de perguntas de vinte alunos, e afinal fui surpreendida com dezenas de crianças num auditório enfeitado com lindos painéis com trabalhos criativos que os alunos tinham feito a partir da história. Juro que foi muito mais emocionante do que a menção honrosa!

E a saga desta historinha - "Mininus" - continua: é um dos dez contos infantis que formam o audio-livro "Ouvir o Livro"; um belo projecto da Associação dos Escuteiros de Cabo Verde em prol da inclusão, que tem ele próprio na sua origem uma linda história de duas crianças cegas que também querem ler histórias. Ler com outro sentido, pois então...


A apresentação pública de "Ouvir o Livro" foi no dia 04 de Julho, no Palácio da Cultura Ildo Lobo. Que este audio-livro chegue a todos os meninos sedentos de ler histórias!

terça-feira, 14 de março de 2017

Poeta fui/Do fundo do baú




Este foi um dos poemas que escrevi em 2012, inspirada por uma fotografia do fotógrafo Sandro Luini que me convidou para uma parceria criativa.

Na altura não pensei nele assim, mas hoje ouço um batuco quando leio os versos ;) 


Pa mar!

Nu  bai
Nu pintxa
Nu poi boti na mar

Nu bai
Nu djunta mon
Nu poi boti na mar

Nu poi boti na mar
Nu bai briga ku ondas
Nu bai djobi bida

Nu poi boti na mar
Nu bai finta prigu

Nu bai busca pon di fidju

Nu  bai
Nu pintxa
Nu poi boti na mar

Nu bai
Nu djunta mon
Nu poi boti na mar 

terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

Txabi Bedju*

Imagem: Garota Criatividade

É, eu coleciono chaves. Chaves de todas as casas em que já morei. Chaves de cadeados de mala e de diários, a chave do portão da casa de Vovó, a do meu primeiro carro. 

Tenho cópias da chave da livraria onde trabalhei durante um verão passado no Porto, da casa de um ex-namorado italiano com quem vivi durante os meses de estudante Erasmus em Paris, e até as chaves de um cacifo de supermercado onde um dia deixei meus cadernos do curso de Direito e nunca mais fui buscá-los, porque no dia seguinte me dei conta que jamais seria jurista, e pouco tempo depois me mudei para o Brasil para ser a fotógrafa de viagens que sempre sonhei ser e que por medo e expectativas alheias estava disposta a abrir mão.

Sei lá por quê coleciono chaves. 

De todas as coisas que eu já colecionei na vida - e eu já colecionei selos, latas de refrigerante e de cerveja, folhas secas, pedras, conchas, cacos de vidro colorido, postais, canetas, filmes de Woody Allen, discos do Nick Cave e da Madonna, fotos e recortes do Lenny "Adrian" Kravitz, break-ups inusitados com namorados ... - de todas as coisas que já colecionei,dizia, só as chaves e as recaídas com o Adrian  permanecem.

 De tudo abri mão, deixei para trás (nas casas de que guardo as chaves mesmo sendo certo que jamais a elas retornarei), dei a alguem ou simplesmente atirei ao lixo. Excepto as chaves. E as recaídas com o Adrian "Kravitz".

O Adrian fazia troça da minha colecção de chaves, guardadas num pequeno baú antigo, de madeira dura e escura, que fora de Vovó e ela me oferecera num aniversário meu. Mas eu sabia que ele apreciava a minha colecção. Apreciava o facto de eu a ter.

De cada vez que reatávamos, ele me oferecia uma nova chave. E num dia qualquer em que estivéssemos nos braços um do outro, depois de fazermos amor, ele contaria lenta e detalhadamente - com aquele sotaque paulista na sua voz rouca, do qual eu tanto sentia saudades - a história de como aquela chave chegara até ele. Ou ele chegara à chave.

 Por duas vezes a chave que ele me trouxera era da casa de mulheres com quem ele se relacionara. Estas também guardei, porque eram igualmente parte da minha história. Tudo o que acontecia ao Adrian, tudo o que viria a acontecer-lhe até aos fins dos seus dias neste mundo, era e seria parte da minha história.

Sempre que me trazia uma nova chave, ele gozava:  Old keys won't open new doors.
E só para o contrariar, eu respondia o que aprendera com Vovó: Txabi bedju ka ta botadu.

Adrian é uma chave antiga.É a minha chave mais antiga.

OBS: Escrito de um "fôlego", das 15:12mn às 15:45mn
* Mudei o titulo para crioulo em homenagem ao dia de hoje, Dia da Língua Materna

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

Frases que Ficam

“Uma mulher não pode sair à rua e intitular-se de feminista, se não conhece o que é o feminismo. O feminismo tem de ser colocado em prática, porque senão não se alcança nada”.

Aida Suárez, livreira

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

Template Dilema

Print screen by me


Desde o finalzinho do ano passado estou neste dilema: mudo ou não o aspecto do Riba Praia & Arredores? Troco o template para arrejar e dar novos usos ao blogue? Ou deixo ficar este não sei quê de vintage que me encanta neste cenário meio literário/cinematográfico pelo qual me apaixonei há seis anos (caramba, este meu "novo" blogue já tem seis anos!)?

E o dilema prossegue. Mesmo eu me encantando com as dezenas de templates todos cleans e pós-modernos que as várias plataformas online me oferecem... E vai ficando este cantinho dark, com as suas sisudas paredes sujas e descascadas e os seus arrogantes móveis antique. 

E a poltrona! Claro, a poltrona onde fico sempre a espera de, de repente, ver alguém sentar-se. 

Não. Não alguém. Ás vezes me parece que, num twist absolutamente surrealista, sou capaz de me ver a mim mesma a chegar e, pachorrentamente, me sentar naquela poltrona com um livro qualquer na mão, o qual começo a folhear e interrompo para lançar um olhar curioso a este lado do ecrã onde teclo estes delírios.
Some kind of Alice trough the looking glass...

terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

Nos é três que krebo txeu, Santiago*

Foto: Binter Cabo Verde

A Binter Cabo Verde teve finalmente, no último trimestre  do ano passado, luz verde para voar os céus entre as ilhas do país. E para lançar o início da sua actividade comercial fez sair uma série de anúncios publicitários, quer em formato impresso quer audiovisual. Aqui e ali os comentários foram unânimes: os anúncios eram um regalo para a vista. Bonitos e convidativos. E quem diria que também seriam um dos raros anúncios comerciais bastante próximos da realidade?

 Falo por mim, que experienciei o facto durante a minha viagem de regresso de São Vicente, nos primeiros dias de Janeiro. Calhou-me a sorte de sentar-me à janela e calhou-me a sorte de, pela primeira vez desde que me lembro, sobrevoar a nossa ilha-maior, ilha-mor,ilha-mãe... A ilha maior em meu coração dividido em mil peças de puzzle.

Pela primeira  vi Santiago, ao vivo e a cores, de uma ponta a outra passando sob os meus olhos! E foi lindo demais. 

Pela primeira vez, das não tantas assim em que voei de regresso a Santiago, o piloto não optou por sobrevoar o mar para vir aterrar na Praia. Ao invés, voou - e em altitude tão baixa como nem pensei alguma vez ser-lhes permitido - sobre a terra marrom de Santiago, salpicada aqui e ali pelo verde desmaiado das acácias. Voou sobre vales pedregosos, montanhas tortas e crateras misteriosas. Voou sobre estradas asfaltadas, estradas calcetadas e caminhos desenhados na terra. Voou sobre casas dispersas, sobre vilarejos e sobre as cidades - Assomada gigante diante dos meus olhos que se humedeceriam mais adiante ante o belo espetáculo que é a Barragem do Poilão vista do ar. 

Dei "chilique". 
Fui tomada pela emoção. Quase chorei. Passou-me pela cabeça violar as regras do voo, ligar o telemóvel para poder captar as imagens de cortar a respiração. O que me conteve não foi a prudência e sim perceber que entre apanhar o telefone na bolsa, conseguir ligá-lo e regressar à minha posição à janela, teria perdido imensos detalhes da experiência única que me estava a ser dada a viver naquele instante. 

Vindos de São Domingos, fomos dar à volta á praia de São Tomé para só então fazer uma entrada triunfal na baía da Gamboa, com direito a sobrevoar o Djéu de Santa Maria. 

Eu devo ser das poucas pessoas que se emocionam quase até às lágrimas sempre que olha para a Cidade da Praia do ar. Um misto de "home sweet home" e qualquer coisa entre vislumbrar a beleza que a cidade ganhou e entristecer-me com o evidente e cada vez maior contraste entre zonas da cidade.

Quando aterramos, não houve aplausos como em tantos outros voos, muitos deles mal-feitos. Inclusive o voo da própria Binter que me levara a Mindelo dias antes e que, não tendo sido mau em sí, teve um serviço de bordo de deixar a desejar (isso dava outra história...) e que, no entanto, mereceu no fim umas palmas da maioria dos passageiros.

Este voo extraordinário, tranquilo, em que pude ver de perto a minha ilha de uma ponta a outra sob o sol radioso de uma manhã de início de ano, este ninguém aplaudiu. E eu fiquei ali...olhando em volta e me arrependendo de ser demasiado tímida para ser eu a puxar o aplauso.

Depois encolhi os ombros e recostei-me. Esperei que os apressados se acotovelassem no corredor do avião a tirar a bagagem de mão e fui depois, calmamente, ter com eles à sala do tapete rolante por onde nos chegariam as malas. A minha foi das primeiras, o que me deu especial gozo e me fez olhar para os apressados "acotoveladores" com ar triunfante. Ninguém me ligou nenhuma.

Saí pela porta do terminal de passageiros para a manhã de sol, a pensar nos anúncios da Binter e em como aquele voo tinha cumprido com o que prometiam. E que teria que escrever sobre aquela experiência. E avisar que a Binter Cabo Verde não me teria pago nem um centavo para lhes fazer publicidade.

A Binter não me pagou nem um centavo por esta publicidade que  estou aqui a lhes fazer.


*Verso de uma música da qual não consigo descobrir nem o titulo nem o autor...

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