Sexta-feira, 5 de Agosto de 2011

Olhar em volta...


Assessores ou acessórios?

A Margarida Fontes escreveu há pouco tempo esta nota sobre certas práticas das assessorias de imprensa e dos gabinetes de comunicação. Um desabafo cheio de razão de ser. Mas não sei se a Margarida tem noção de que muitas vezes os assessores são “obrigados” a tais práticas. A coisa mais difícil nesse tipo de função é aconselhar os assessorados…

Primeiro porque muitos deles não compreendem que também cabe ao assessor esta tarefa: aconselhar, fazer recomendações, avisar, prevenir…infelizmente há assessorados (pessoas e instituições…) que vêm no assessor uma espécie de secretária, que só serve para cumprir ordens e o pior é que às vezes são umas ordens bem pouco dignificantes, para não dizer patéticas, como as que a Margarida cita n’Os Momentos.

A vaidade de alguns assessorados, o quererem aparecer, ver a sua foto na primeira página ou aparecer na TV, leva alguns a exigir coisas absurdas. Quando o principal deveria justamente ser aquilo que merece ser de facto notícia, as realizações com impacto, os projectos transformadores…como disse a própria Margarida em tempos, assinatura de protocolo não é notícia e sim a concretização de alguma acção prevista pelo protocolo.

Inundar a caixa de correio dos jornalistas quase que diariamente com notas pedindo cobertura para todo e qualquer evento não é promover a imagem institucional. Pelo contrário, periga esta imagem, perturba a relação com o jornalista.

E por outro lado o assessor não pode ser pressionado a pressionar a televisão (a menina dos olhos!) a aparecer nos eventos do assessorado. Isto é frete.


Tanta dor...


Tcheka estará em concerto na Praia já no próximo dia 19 de Agosto para apresentar o seu novo CD, Dor de Mar. Até lá espero já ter tido oportunidade de ouvir por inteiro este novo trabalho do músico da Ribeira da Barca.

Confesso que a capa do álbum me intrigou (sem rodeios, não gostei), mesmo sabendo que o CD traz denúncia às agressões ambientais…não havia necessidade.

Também fiquei um pouco assim com o primeiro videoclip de promoção do disco. A música é boa, como sempre, o clip está esteticamente muito bem conseguido, mas pergunto-me se seria essa a música/vídeo mais adequada para lançar o disco. Muito dark para vídeo de promoção do CD (com uma cena que parece um suicídio e tudo). Ainda por riba na época do ano em que estamos (sol, “verão”, festas…).

Bem, o que vale é que, no geral, a qualidade do trabalho de Tcheka mantem-se.






Sexta-feira, 22 de Julho de 2011

Flashback

Eram os anos oitenta em Santiago. Santiago Maior. Era assim que se referiam ao hoje chamado Santiago Norte. Santiago Maior. E era realmente imenso esse Santiago profundo que nós coloríamos presos às saias da Mãe.

Ela era uma heroína desses novos tempos que o país vivia após a turbulenta década de setenta. Em serviço, percorria as profundezas do interior de Santiago para assistir aos doentes, idosos e crianças em situação precária.

Nós, em férias, a seguíamos. Em coro pedíamos: podemos ir contigo? E quando vinha a resposta positiva era uma festa. Metíamo-nos na carrinha e lá íamos. Sem o saber, éramos testemunhas privilegiadas do viver das gentes do interior. Das suas dores e esperanças, naqueles tempos difíceis dos pós independência, quando ainda poucos eram os que nos ajudavam e o país vivia com a sombra daquela sentença de inviável a pairar sobre si.

Nós percorremos aos solavancos estradas de terra batida, poeirentas e esburacadas. Longe, ah, tão longe!, do asfalto brilhante que hoje orgulha a nação. Cruzamo-nos com os trabalhadores das FAIMO de martelo em riste a esculpir paralelepípedos para estradas que nas nossas próximas visitas já não seriam de terra.

Fomos convidados para humildes casas de paredes de pedras sem reboco e tecto de palha onde as pessoas eram ricas em simpatia e generosidade. Festejamos alguns natais com aqueles idosos e aquelas crianças nas festas que a repartição dos Assuntos Sociais organizava para eles. Testemunhamos a alegria e gratidão com que recebiam tão pouco quando precisavam de tanto mais!

Nós corremos por entre o mar verde de bananeiras da Justino Lopes antes, muito antes, das pragas e o descaso arrasarem uma das maiores e mais bem-sucedidas empresas do país.

Fizemos piqueniques em São Jorge quando ainda não era moda. Mergulhamos nas águas quentes de Achada Lage, comemos manga até ao fastio em Tomba Toro, a poeira de Rincon e Renque Purga colou-se-nos à pele. Atolamos no feixe de terra que era a estrada para Mato Sanche, levamos horas para ir e voltar de Ribeirão Boi, Pilão Cão, Achada Ponta, Boa Entrada, Ribeira das Naus, Achada Leitão...

Eram os anos oitenta e nos éramos uns miúdos metidos a aventureiros e que não percebiam o privilégio que estavam a ter de assistir na primeira fila à lenta luta do país por vingar. Nós vimos de perto homens e mulheres a construir estradas e diques; nós vimos de perto homens e mulheres nos montes, debaixo do sol abrasador, a plantar milho e feijão; nós vimos professores e alunos que madrugavam para chegar, depois de longas caminhadas, às suas escolas.

Mãe ia à frente da sua equipa levar medicamentos, alimentos, roupas, material escolar e também um pouco de esperança àquelas gentes ansiosas pelo amanha que Cabral sonhara. Um amanhã que já lá estava mas que também ainda vinha vindo.

Fel

Eu agora sinto-me sufocar nesta cidade. Sinto-me apontada, perseguida pelos desvalidos, acusada pelo meu sucesso. A culpa tolhe-me os movimentos quando, à saída do café, aquela trupe formada pela velhinha, o paralítico e a criança me esperam e disparam a frase automática, repetida êne vezes durante aquele dia e nos precedentes: Dona, nha dam algum kusa…

Eu fujo. Fujo das mãos estendidas. Das suas vozes. Do remorso que me segue. Já dei alguma coisa há dias! Dei na semana passada! E na semana antes desta! Mas eles continuam lá... As minhas moedas não melhoram as vidas deles.

Amigos me dizem que não devo dar nada. Que é um vício dessa gente. Que dão má imagem à cidade. Que incomodam os turistas e os cidadãos, que já nem podem ir ao café sossegados sem serem confrontados com aquela parada de miséria.

O meu BMW novinho fica preso no trânsito por causa de uma hyace mal parada que me bloqueia o caminho. Do autocarro, na faixa ao lado, as pessoas olham-me, acusadoras. O luxo do meu carro agride-as, eu sinto. Entredentes, atiro um foda-se! que só eu posso ouvir.

Trabalhei muito para ter este carro. E vou ter que trabalhar muito mais ainda para acabar de pagar o empréstimo monstruoso que contraí para comprá-lo. Não é culpa minha que eles tenham que se espremer naquele autocarro imundo e ver passar carros lindos que nunca vão ter na vida…

Estou atrasada. Tenho uma reunião na empresa. Enervo-me. Insulto o taxista que se mete à minha frente em ultrapassagem feita a partir do lado errado. Vou mesmo chegar atrasada. Outra vez. Cheguei ontem atrasada à escola do meu filho na hora de  o ir buscar. Ele ficou mais de uma hora à minha espera. No fim-de-semana atrasei-me a chegar a um espectáculo de música. Atraso-me até para os almoços de família, consulta médica, depilação… Perceber que a falta de pontualidade é um hábito nacional e socialmente bem aceite não me tranquiliza. Um dia destes eu hei-de conseguir não me preocupar com isto.

Esta cidade agora sufoca-me. Todos os dias de manhã ao sair de casa o meu primeiro encontro é com um individuo que remexe o meu lixo. O lixo do dia anterior que a minha empregada leva para baixo, mal inícia o serviço, de manhã cedo. Ele me vê sair e até bom dia me diz. E continua pachorrentamente a abrir os sacos com o meu lixo.

Remexe os pacotes de compal, revira os potinhos de iogurte danone e as latas de paté. Afasta as minhas toalhitas desmaquiantes só para ir encontrar no fundo um maço com um par de cigarros retorcidos que o meu marido deitou fora. Consegue também um radiozinho a pilhas, velho como quê, que mandei a empregada deitar fora - mesmo sem estar estragado - por já não o usarmos há séculos.

Estou tão cansada da minha casa... Eu queria ter coragem de ter a casa dos meus sonhos. Uma casinha aconchegante, que transmitisse calor humano e deixasse perceber logo a entrada quem vive ali. Tenho uma casa que parece um show room (fomos ao Ikea, em Portugal, e escolhemos a sala 253, o quarto 47, a cozinha 148…). Impecável. Tudo recto, tudo estrategicamente combinadinho, com quadros caros de pintores que nem sei se são mesmo bons.
Fria. Impessoal. Estática. Podia ser a casa de qualquer um. Não há nada nela que faça saltar à vista que aquela é a casa da Julia e de sua família. Foi tudo comprado de uma sentada. E eu queria era ter uma daquelas casas onde as coisas são compradas aos poucos. Onde se vai descobrindo em lojinhas simples um espelho antigo para a sala, um cadeirão para o quarto, uma planta para a casa de banho…

As minhas colegas de trabalho invejam a minha casa. Invejam o marido que eu tenho. Invejam a minha posição na empresa. Eu finjo que não percebo. Sorrio-lhes, brinco com elas, almoçamos juntas uma vez por semana. Sei de algumas que já tentaram lixar-me pelas costas. A sorte é que o chefe não vai em fofocas.

O mundo do trabalho está a virar uma selva. Vale tudo para subir e a graxa é o melhor escadote. Eu queria era poder mandar este emprego à fava. Cansei. Os meus projectos sempre ficam na prateleira à espera de orçamento. Desencantei. Queria era poder esquecer os créditos por pagar e a conta-poupança para a universidade do miúdo e ir montar um negócio de cultivo e venda de plantas e flores.

E o meu casamento? Outra situação de que eu gostaria de ter a coragem de sair. Ele tem amantes. Eu sei. Mas finjo que não sei de nada. Porque ele até que é discreto. Não é desses que deixam a cidade toda saber que traem a mulher. E depois há os empréstimos que temos que pagar em conjunto. Há o nosso filho… Sem falar no prestígio social de ser casada de "papel passado", ainda por cima com alguém de uma das famílias mais antigas e finas do Platô. Não dá para abrir mão assim…

Contudo, eu não sou completamente infeliz. Não sou mesmo. Porque há uma coisa que me salva. Uma coisa que me faz acordar todos os dias e sentir-me verdadeiramente feliz e satisfeita comigo mesma: sou bonita e magra. Oh, como agradeço a deus por estas dádivas!

Quinta-feira, 14 de Julho de 2011

Has darkness a positive side?

Que fazem as pessoas dentro de casa quando há luz? Vêm televisão? Quedam-se frente ao computador? Passam a ferro a roupa para o dia seguinte? Fazem amor com a luz acesa? fazem as mesmas coisas que eu? Só sei que, na rua onde moro, quando não há luz - apenas quando não há luz - as pessoas aparecem. A rua, sempre deserta, sempre silenciosa, acorda.

Os adultos vêm à janela (ou à varanda) olhar para a tarde ou para a noite. Alguns até conversam! Trocam frases duma varanda à outra. Mas o mais extraordinário é as crianças virem à rua jogar à bola.

Moro naquela ruazinha há um ano e não me tinha dado conta de que lá moravam tantas crianças. Por estes dias, quando falta a luz, saem à rua e matam o tempo a jogar à bola. O barulho habitual - que se não é silêncio, é a partida e chegada dos carros - é cambiado por risos e gritinhos entusiásticos.

Neste fim de tarde de hoje (sem luz, outra vez sem luz!) estou à janela a escrever estas trivialidades. Minutos antes lia as deliciosas mornas, coladeiras, rumbas e fados escritos por Lobo Antunes. O melhor que faço é voltar ao livrinho e continuar a fazer voar a minha alma para longe das trevas onde a Electra teima em nos querer mergulhar...

(escrito 12 de Julho)

Coladera de Lobo Antunes

Colado na Coladeira

Colado na coladeira
vi o meu amor dançar
eu danço à minha maneira
como folha pelo ar.

Meu amor dança sozinho
ninguem dança como ele
peito com peito juntinho
coxa a coxa pele a pele.

Rio o riso do teu rosto
deito o corpo à tua beira
és cor do sol ao sol posto
colado na coladeira.

 Morna da autoria do escritor português António Lobo Antunes. Fiquei a imaginar uma melodia para ela. E como soaria na voz da Nancy Vieira. Melhor, na voz do Dudu Araújo...

Terça-feira, 7 de Junho de 2011

I hate it more, honey...

Ele: Vou tomar um banho

Ela: Não faças como da outra vez. Usa só uma garrafa, ok?

Ele: Mas eu posso lá tomar banho só com cinco litros de água?

Ela: Podes, sim senhor. E não te esqueças de pôr a tampa no ralo para se aproveitar depois a água suja. Vamos todos virar ecologistas estes dias…

Ele: Oh céus! E que utilidade poderá ter o meu caldo?

Ela: Então, aproveita-se a água do teu banho para limpar o chão da varanda, ou pôr na sanita…

Ele: oh nha má…

Ela: Estamos na penúria, filho…

Ele: E os meninos? Quando é que voltam?

Ela: Deixa os nossos rapazinhos lá onde estão. Ficam em São Domingos até se resolver essa crise. Pelo menos podem tomar banho todos os dias.

Ele: E as aulas? Eles estão a perder aulas…

Ela: Olha lá, eu disse-te para morarmos numa casa com tanque, não disse? Mas na altura tu preferiste meter-nos num apartamento todo janota mas que, ficando num prédio com dezenas de moradores, não tem depósito de água que nos garanta em tempos de crise. Agora temos que aguentar.

Ele: I hate Electra!

Ela: I hate it more, honey!

Coisas Que eu Escrevo Quando Acordo às Quatro da Manhã e Não Tenho Mais o Que Fazer da Vida...

Gostas de mim. Dizes que sim. E que queres ficar comigo. Mas e então? Tudo o que foi será apagado? Simplesmente, esqueço? A dor. O abandono. A solidão. A raiva. A tristeza. A humilhação. Esqueço? Não me esqueci do que tivemos de bom. Não. Não esqueci a nossa amizade. O companheirismo. A diversão. O sexo. A cumplicidade. O amor. Sim, o amor.
Não me esqueci. Mas tu és quem tu és. E eu conheço-te. Eu sei-te. Tu nãos és dos que ficam. Tu não és dos que resistem. Tu não deixas ninguém ser maior em ti do que tu mesmo.

Éramos perfeitos. Ou podíamos ter sido. Porém, tu nos quebraste. Bem antes do fim. Eu é que insisti em colar os cacos, fingir que as rachas até nos davam carisma. A verdade é que ficamos feios. A certa altura, juntos, éramos grotescos. Eu consegui ver isso. Acho que tu também. Mas insistes.

Ainda não, digo-te eu. Ainda não. Vamos enterrar os cacos. Vamos curar as feridas. Deixar morrer a dor. Desvanecer o medo. E esperar. A ver se um dia a semente volta a germinar.

Se não tenho medo? Tenho pois. Conheço-te. Sei a facilidade com que te dás a outras. A rapidez com que amas ou pensas amar. Sei que não sabes estar só. E um dia destes aparece-te alguém muito melhor do que eu (pfff, até parece que isso é difícil...) e eu posso vir a me arrepender das minhas cautelas...

Que eu me arrependa então! Que fazemos nós neste mundo se não aprendemos nada com a vida? E eu aprendi. Tu me ensinaste. Doeu. Custou. Morri...mas aprendi. E por isso espero. Por isso, espera.
Escrevo-te de madrugada. Isto são coisas que eu escrevo quando acordo às quatro da manhã e não tenho mais o que fazer da vida. Lá fora, o céu chora copiosamente sobre Lisboa. Os ponteiros avançam no relógio mas a escuridão das nuvens mete medo ao sol.
Sinto saudades de Londres. De nós dois em Londres com um tempo como este. Baldávamo-nos ao college e ficávamos a manhã toda debaixo dos edredões numa irresponsabilidade feliz de estudantes Erasmus esquecidos do amanhã.


(to be continued...)