Eu agora sinto-me sufocar nesta cidade. Sinto-me apontada, perseguida pelos desvalidos, acusada pelo meu sucesso. A culpa tolhe-me os movimentos quando, à saída do café, aquela trupe formada pela velhinha, o paralítico e a criança me esperam e disparam a frase automática, repetida êne vezes durante aquele dia e nos precedentes: Dona, nha dam algum kusa…
Eu fujo. Fujo das mãos estendidas. Das suas vozes. Do remorso que me segue. Já dei alguma coisa há dias! Dei na semana passada! E na semana antes desta! Mas eles continuam lá... As minhas moedas não melhoram as vidas deles.
Amigos me dizem que não devo dar nada. Que é um vício dessa gente. Que dão má imagem à cidade. Que incomodam os turistas e os cidadãos, que já nem podem ir ao café sossegados sem serem confrontados com aquela parada de miséria.
O meu BMW novinho fica preso no trânsito por causa de uma hyace mal parada que me bloqueia o caminho. Do autocarro, na faixa ao lado, as pessoas olham-me, acusadoras. O luxo do meu carro agride-as, eu sinto. Entredentes, atiro um foda-se! que só eu posso ouvir.
Trabalhei muito para ter este carro. E vou ter que trabalhar muito mais ainda para acabar de pagar o empréstimo monstruoso que contraí para comprá-lo. Não é culpa minha que eles tenham que se espremer naquele autocarro imundo e ver passar carros lindos que nunca vão ter na vida…
Estou atrasada. Tenho uma reunião na empresa. Enervo-me. Insulto o taxista que se mete à minha frente em ultrapassagem feita a partir do lado errado. Vou mesmo chegar atrasada. Outra vez. Cheguei ontem atrasada à escola do meu filho na hora de o ir buscar. Ele ficou mais de uma hora à minha espera. No fim-de-semana atrasei-me a chegar a um espectáculo de música. Atraso-me até para os almoços de família, consulta médica, depilação… Perceber que a falta de pontualidade é um hábito nacional e socialmente bem aceite não me tranquiliza. Um dia destes eu hei-de conseguir não me preocupar com isto.
Esta cidade agora sufoca-me. Todos os dias de manhã ao sair de casa o meu primeiro encontro é com um individuo que remexe o meu lixo. O lixo do dia anterior que a minha empregada leva para baixo, mal inícia o serviço, de manhã cedo. Ele me vê sair e até bom dia me diz. E continua pachorrentamente a abrir os sacos com o meu lixo.
Remexe os pacotes de compal, revira os potinhos de iogurte danone e as latas de paté. Afasta as minhas toalhitas desmaquiantes só para ir encontrar no fundo um maço com um par de cigarros retorcidos que o meu marido deitou fora. Consegue também um radiozinho a pilhas, velho como quê, que mandei a empregada deitar fora - mesmo sem estar estragado - por já não o usarmos há séculos.
Estou tão cansada da minha casa... Eu queria ter coragem de ter a casa dos meus sonhos. Uma casinha aconchegante, que transmitisse calor humano e deixasse perceber logo a entrada quem vive ali. Tenho uma casa que parece um show room (fomos ao Ikea, em Portugal, e escolhemos a sala 253, o quarto 47, a cozinha 148…). Impecável. Tudo recto, tudo estrategicamente combinadinho, com quadros caros de pintores que nem sei se são mesmo bons.
Fria. Impessoal. Estática. Podia ser a casa de qualquer um. Não há nada nela que faça saltar à vista que aquela é a casa da Julia e de sua família. Foi tudo comprado de uma sentada. E eu queria era ter uma daquelas casas onde as coisas são compradas aos poucos. Onde se vai descobrindo em lojinhas simples um espelho antigo para a sala, um cadeirão para o quarto, uma planta para a casa de banho…
As minhas colegas de trabalho invejam a minha casa. Invejam o marido que eu tenho. Invejam a minha posição na empresa. Eu finjo que não percebo. Sorrio-lhes, brinco com elas, almoçamos juntas uma vez por semana. Sei de algumas que já tentaram lixar-me pelas costas. A sorte é que o chefe não vai em fofocas.
O mundo do trabalho está a virar uma selva. Vale tudo para subir e a graxa é o melhor escadote. Eu queria era poder mandar este emprego à fava. Cansei. Os meus projectos sempre ficam na prateleira à espera de orçamento. Desencantei. Queria era poder esquecer os créditos por pagar e a conta-poupança para a universidade do miúdo e ir montar um negócio de cultivo e venda de plantas e flores.
E o meu casamento? Outra situação de que eu gostaria de ter a coragem de sair. Ele tem amantes. Eu sei. Mas finjo que não sei de nada. Porque ele até que é discreto. Não é desses que deixam a cidade toda saber que traem a mulher. E depois há os empréstimos que temos que pagar em conjunto. Há o nosso filho… Sem falar no prestígio social de ser casada de "papel passado", ainda por cima com alguém de uma das famílias mais antigas e finas do Platô. Não dá para abrir mão assim…
Contudo, eu não sou completamente infeliz. Não sou mesmo. Porque há uma coisa que me salva. Uma coisa que me faz acordar todos os dias e sentir-me verdadeiramente feliz e satisfeita comigo mesma: sou bonita e magra. Oh, como agradeço a deus por estas dádivas!